13/02/2004 01:23
O passado só me interessa na medida em que posso usá-lo hoje. Mas lembrar pelo prazer de lembrar, curtir a lembrança pela lembrança, é como a arte pela arte, não leva a nada: não é um mofo, porque o mofo vive, se propaga; não, é ranço mesmo, coisa seca, árvore que não dá mais fruto. Mas, atenção, não digo que o passado é estéril. O uso que se faz dele é o que é.
Sobretudo, hoje, como se nossa época, tida como a mais angustiada e lúcida do que qualquer outra na História, quisesse se acalmar e se atordoar à custa da memória. Mais,a memória é coisa muito bela, é alguém que nos acompanha sempre.
Talvez seja nosso verdadeiro anjo da guarda a nos mostrar os caminhos. Mas memórias, isso que as pessoas despejam... Por quê? Prefiro projetos a lembranças. Ou me nutrir do magnífico verso de Baudelaire: Jai peus de souvenirs que si javais mille ans.
(Maurice Bejart,é um dos bailarinos e coreógrafos mais conhecidos e respeitados do mundo. Iniciou sua carreira no balé clássico francês em 1946. Criou peças eternas na história da dança: Sinfonia de um Homem Solitário (1955), Orfeu (1958) e Romeu e Julieta (1966) são algumas delas.)
enviada por Skinha
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